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Pais ausentes: ave põe ovos em ninho alheio para que outros cuidem deles

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Algumas espécies de cuco deixam seus ovos em ninhos de outras aves — uma estratégia reprodutiva conhecida como parasitismo de ninhada. (Foto: Instagram)

“Foi comprar cigarro e nunca mais voltou” é uma frase usada com humor entre humanos para falar de abandono paterno. O que poucos sabem é que algo semelhante acontece no reino animal, entre algumas espécies de cuco, ave presente em quase todos os continentes, menos na Antártida.

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Mas por que o comportamento dos cucos é comparado ao abandono parental? A relação ocorre porque essas aves adotam uma estratégia reprodutiva na qual a fêmea, durante a postura, pode retirar ou danificar um ovo do ninho de outra ave hospedeira para colocar o próprio. Sem perceber, a hospedeira passa a incubar o ovo intruso e pode alimentar o filhote depois que ele nasce.

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A bióloga Nathália Alves, do Oceanic Aquarium, em Santa Catarina, explica que o parasitismo de ninhada amplia as chances de sucesso reprodutivo de algumas espécies de cuco: a fêmea deposita os ovos no ninho de outras aves, que os chocam e criam o filhote como se fosse seu.

Em algumas espécies, ao nascer, o próprio filhote pode empurrar para fora do ninho os outros ovos ou as crias que já eclodiram. Com isso, aumenta a possibilidade de obter mais alimento e, por consequência, sobreviver.

Esse comportamento não é observado em todas as espécies de cuco. Na realidade, a maioria constrói o próprio ninho, choca os ovos e cria os filhotes, como faz grande parte das aves.

O biólogo Rafael Moreira, do Parque Três Pescadores, no estado de São Paulo, afirma que essa variedade revela como diferentes estratégias reprodutivas podem surgir e permanecer entre espécies aparentadas, conforme sua história evolutiva e as condições ecológicas.

PAIS AUSENTES OU ESTRATÉGIA EVOLUTIVA?

Por sermos humanos, tendemos a relacionar o comportamento a atitudes humanas, o que pode levar a julgamentos sobre a conduta dos cucos. Biologicamente, porém, deixar os ovos em ninhos hospedeiros para que outras aves cuidem deles é considerado uma estratégia reprodutiva evoluída.

A professora de ciências animais Dara Evely, da Universidade Católica de Brasília (UCB), observa que é possível chamar esses animais de “pais ausentes” quando se fala em cuidado parental. Ainda assim, eles investem na reprodução ao se empenhar e planejar a busca por outros ninhos e a deposição dos ovos.

Segundo Dara, a fêmea produz ovos com características que facilitam a aceitação pelo hospedeiro, evitando que sejam percebidos como diferentes. A professora considera essa ação uma forma de cuidado indireto. Por integrar uma estratégia evolutiva, o comportamento se desenvolveu ao longo de muitas gerações e tornou-se instintivo, sobretudo pela influência genética e ambiental.

Nathália cita como exemplo o filhote de cuco-comum, que nasce com o instinto de empurrar ovos ou outros filhotes para fora do ninho, mesmo sem ter contato com os pais biológicos.

COMPORTAMENTO DA AVE AFETA SOBREVIVÊNCIA DOS “PAIS ADOTIVOS”

Embora essa conduta favoreça o surgimento de novos cucos, o efeito para as aves hospedeiras é diferente. O parasitismo de ninhada pode reduzir de forma significativa o sucesso reprodutivo dos “pais adotivos”.

Dara ressalta que as hospedeiras dedicam tempo e energia para incubar o ovo do cuco e alimentar o filhote, recursos que poderiam ser usados para cuidar da própria prole.

Moreira pondera, contudo, que a estratégia nem sempre dá certo. Algumas aves têm defesas mais desenvolvidas e conseguem identificar e rejeitar ovos diferentes encontrados em seus ninhos.

O biólogo destaca que esse processo também provoca uma espécie de corrida evolutiva: enquanto os cucos desenvolvem maneiras de enganar as hospedeiras, elas criam mecanismos para reconhecer e impedir o parasitismo.

Tags: animais, ciência

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