Na semana passada, a cantora Anitta lançou os visuais de Equilibrium II e enfrentou críticas nas redes sociais pelo alegado uso de inteligência artificial na produção dos videoclipes. Internautas e até artistas como Flora Matos acusaram a cantora de usar essa tecnologia nos vídeos e no filme relacionado ao novo álbum.
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O estúdio criativo Bezier, responsável pelo projeto, afirmou que, dos 35 minutos de produção, apenas 1 minuto e 15 segundos utilizam inteligência artificial.
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“Assim como outros recursos que enriqueceram o audiovisual, vemos a IA como uma ferramenta para ampliar possibilidades criativas e fortalecer histórias criadas por pessoas. Acreditamos no uso consciente, ético e direcionado da tecnologia”, declarou a empresa.
REALIDADE NO AUDIOVISUAL
Especialistas em tecnologia e inteligência artificial ouvidos pela coluna Fábia Oliveira explicaram que o uso da ferramenta no audiovisual já é uma realidade e discutem os limites entre utilizar a tecnologia como apoio à criação e deixar que ela assuma o processo criativo.
Segundo Ademar Paes Júnior, especialista em IA e CEO da LifesHub, a tecnologia já é usada em diversas etapas de produções cinematográficas.
“Grandes estúdios utilizam inteligência artificial em várias etapas da produção, principalmente em efeitos visuais, restauração de imagens, tratamento de voz, pós-produção e criação de referências para equipes de arte”, explicou.
LIMITES
Para o especialista, a discussão atualmente está menos relacionada à presença da tecnologia e mais aos limites de sua utilização: “A discussão hoje já não é mais se a IA será utilizada, mas quais limites devem existir para seu uso”, afirmou.
Eduardo de Barros, especialista em marketing digital e CEO da IDK Brasil, também destacou que a IA já está presente na rotina de grandes produtoras e estúdios independentes. Segundo ele, anteriormente a tecnologia era utilizada de maneira mais discreta, em processos como redução de ruído de áudio, melhoria de imagem, colorização e criação de storyboards.
“Com a evolução das ferramentas generativas, porém, a participação da IA passou a ficar mais evidente. A indústria audiovisual não está descobrindo a IA agora, apenas passou a usá-la em camadas mais visíveis da narrativa”, comentou.
MEDINDO A UTILIZAÇÃO
Apesar da presença cada vez maior da tecnologia, os especialistas ressaltaram que existe uma diferença entre utilizar a IA como ferramenta de apoio e delegar a ela praticamente todo o processo criativo: “Quando a IA auxilia um diretor, um roteirista ou um editor, ela funciona como uma ferramenta de apoio. A decisão criativa continua sendo humana”, observou Ademar.
Para ele, a situação muda quando praticamente toda a criação é delegada ao sistema e o papel do profissional passa a ser apenas escolher entre opções geradas pela ferramenta.
HUMANO X TECNOLOGIA
Já Felipe Pereira, especialista em mercado digital, acrescentou que existe um espectro entre utilizar a IA para executar uma visão artística e deixar que a ferramenta produza praticamente toda a obra.
“De um lado, temos um diretor usando IA para executar sua visão: ele define o conceito, referências, gera e seleciona alternativas, reprova resultados e combina com material gravado, definindo o resultado final”, pontuou, antes de completar:
“Do outro, temos alguém que solicitou à IA a criação integral de um vídeo e adota o primeiro resultado sem nenhuma crítica ou complemento. O ponto-chave é quem tomou as decisões criativas relevantes e o quanto a IA serviu para ‘pensar’ a peça ou apenas para executar a criação concebida pelo diretor”, disse.
O USO DA IA DIMINUI O VALOR ARTÍSTICO?
Para Eduardo, de Barros, o simples uso de inteligência artificial não significa que uma produção tenha menor valor artístico. O que deve ser levado em consideração é a intenção por trás da utilização da tecnologia e a participação humana no processo.
“O valor artístico não está na quantidade de esforço manual investido, mas sim no conceito, na emoção transmitida, no contexto e na capacidade daquela obra de se conectar com as pessoas”, avaliou.
Para Kenneth Corrêa, professor da FGV, palestrante internacional, especialista em dados e tecnologias emergentes e CTO da MedGuias, a inteligência artificial não necessariamente reduz o valor artístico, mas muda o papel de quem cria.
“O valor não foi reduzido, mas transferido. A barreira de entrada da arte deixou de ser a habilidade braçal e passou a ser um exercício estrito de curadoria e direção de visão”, opinou.
DIRIGINDO O PROCESSO
Segundo ele, o profissional que utiliza ferramentas generativas passa a atuar como uma espécie de diretor do processo: “A máquina consegue gerar volume infinito, mas o algoritmo tende, por padrão, ao gosto médio e previsível. O artista de alto escalão abandona o trabalho braçal e assume a cadeira de editor-chefe”, comentou.
Outro ponto que gera discussão é a utilização da inteligência artificial em projetos comerciais. Para os especialistas, transparência, respeito aos direitos autorais e consentimento são alguns dos principais pontos que devem ser considerados.
Eduardo de Barros ressaltou que a tecnologia não precisa ser escondida: “Com o nível de realismo que as plataformas possuem hoje, não informar que é uma obra utilizando IA acaba ferindo a ética e desrespeitando o intelecto do espectador. A tecnologia está aí para ser usada e não devemos ter vergonha de assumir quando fizermos uso”, apontou.
USO ÉTICO
Ademar Paes acrescenta que o debate internacional envolve principalmente a proteção das obras utilizadas no treinamento dos sistemas e o uso de características pessoais, como voz, rosto e interpretação, sem autorização: “O uso pode ser totalmente ético, desde que exista transparência, respeito aos direitos autorais e consentimento das pessoas envolvidas”, esclareceu.
Para Kenneth Corrêa, a questão ética também está relacionada à rastreabilidade: “O que define a legitimidade de um projeto não é a presença do algoritmo no estúdio, mas a origem do banco de dados que treinou a máquina e a clareza na divisão financeira daquele fluxo”, afirmou.
POR QUE A IA GERA TANTA POLÊMICA?
A resistência à tecnologia, segundo os especialistas, envolve questões econômicas, profissionais e culturais. Para Felipe Pereira, o receio de substituição do trabalho humano é um dos principais fatores: “Por ser algo novo e envolver substituição do homem, o medo de que sejam substituídos faz com que profissionais teçam grandes críticas à tecnologia”, disse.
Eduardo de Barros destacou ainda o debate sobre direitos autorais e autenticidade. “A polêmica existe por uma combinação de fatores econômicos, culturais e emocionais. Em primeiro lugar, há o receio real do mercado de trabalho e o debate sobre o direito autoral das obras que treinaram esses modelos”, explicou.
O PÚBLICO VAI ACEITAR CADA VEZ MAIS?
Apesar da atual resistência, os profissionais acreditam que a percepção sobre a inteligência artificial na produção artística deve mudar à medida que a tecnologia se torne mais comum.
“Hoje quase ninguém pergunta se um filme utilizou computação gráfica ou efeitos digitais. Em algum momento, a inteligência artificial também passará a ser vista como mais uma tecnologia de produção”, analisou Ademar.
Eduardo acredita que a tendência será semelhante: “À medida que as ferramentas amadurecerem e deixarem de ter aquela estética ‘sintética’ tão reconhecível, a IA passará a ser enxergada como mais um software no ecossistema de produção”, observou.
Felipe também concorda em uma mudança gradual: “Creio que deva mudar com o tempo, na medida em que se torne mais popular”, disse.
IDENTIFICANDO A UTILIZAÇÃO
No caso de Equilibrium II, o estúdio Bezier informou que a inteligência artificial foi utilizada em apenas 1 minuto e 15 segundos de uma produção de 35 minutos. Mas como é possível comprovar tecnicamente essa informação?
Segundo Eduardo de Barros, a verificação pode ser feita por meio dos arquivos de produção: “Essa verificação é simples e totalmente auditável por meio do arquivo mestre do projeto de edição e pós-produção. Softwares como Adobe Premiere e DaVinci Resolve registram com precisão milimétrica a linha do tempo, mapeando exatamente onde cada imagem, efeito ou render foi aplicado ao longo dos 35 minutos”, detalhou.
Felipe Pereira, porém, alertou que, sem acesso aos arquivos originais, não é possível confirmar externamente a informação divulgada pelo estúdio: “Esse número veio do estúdio envolvido na produção. Desse modo, em tese, só com acesso aos arquivos de produção daria para confirmar com precisão”, apontou.
Kenneth Corrêa explicou também que a comprovação pode envolver diferentes camadas técnicas de documentação: “Tecnicamente, essa comprovação não é feita ouvindo a obra final, mas abrindo o projeto na mesa de edição. O produtor precisa fatiar a obra nos ‘stems’, ou seja, nas trilhas isoladas de voz, arranjo, base e efeitos”, enumerou.
RASTREANDO A IA
Segundo o especialista, tecnologias de rastreabilidade também podem auxiliar na identificação da origem dos conteúdos: “Cada trecho gerado por uma IA pode carimbar o metadado do arquivo no milissegundo em que sai do servidor”, revelou.
Para Ademar Paes, independentemente da quantidade de IA empregada, a tendência é que a transparência se torne cada vez mais importante para a indústria criativa: “Acredito que, em poucos anos, a pergunta deixará de ser ‘este filme usou IA?’ e passará a ser ‘a IA foi utilizada de forma ética e respeitou quem criou aquela obra?’”, concluiu.


