Pesquisadores da Universidade Médica de Nara, no Japão, estão desenvolvendo um sangue artificial universal compatível com todos os tipos sanguíneos, utilizando hemoglobina encapsulada sem antígenos do sistema ABO, o que pode dispensar a necessidade de tipagem antes de transfusões e ampliar a disponibilidade do recurso em contextos de emergência e falta de doações.
A iniciativa surge em um cenário de déficit global de sangue. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), muitos países enfrentam dificuldades para garantir estoques seguros e suficientes para atender à demanda hospitalar. Estimativas da Cruz Vermelha Alemã indicam que cerca de 112 milhões de doações são necessárias anualmente em todo o mundo, sendo que uma única coleta pode beneficiar até três pessoas em situação grave.
Apesar desse volume, a distribuição de doadores é considerada desigual. Aproximadamente 40% das doações ocorrem em países de alta renda, que concentram apenas 16% da população global. Além disso, o sangue coletado em regiões como a Europa raramente é enviado para países da África ou da Ásia, o que reforça desafios logísticos e de acesso. Mesmo nações com sistemas de saúde estruturados registram carência contínua de voluntários. Na Alemanha, por exemplo, a demanda diária gira em torno de 15 mil doações.
Diante dessas limitações, a pesquisa japonesa busca oferecer uma alternativa independente de doadores. O sangue artificial em desenvolvimento utiliza hemoglobina encapsulada, estrutura capaz de transportar oxigênio sem apresentar marcadores imunológicos associados aos tipos sanguíneos tradicionais. A ausência de antígenos ABO pode permitir uso em diferentes pacientes sem necessidade de compatibilização prévia.
Outras estratégias também são investigadas internacionalmente para ampliar a oferta de produtos sanguíneos. Entre elas, estão estudos com células-tronco para produzir glóbulos vermelhos com maior capacidade de transporte de oxigênio, desenvolvimento de enzimas capazes de neutralizar características de determinados tipos sanguíneos e criação de glóbulos vermelhos artificiais com maior tempo de circulação.
A utilização de sangue animal geneticamente modificado tem sido considerada teoricamente possível, mas enfrenta obstáculos técnicos e imunológicos. Diferenças estruturais entre hemácias humanas e animais levam o sistema imunológico a reconhecer o material como estranho, o que pode provocar rejeição. Processos de remoção ou substituição de antígenos também são apontados como complexos e ainda não viáveis para aplicação clínica.

