
O populismo eleitoreiro transforma campanhas em espetáculos de promessas, emoções e confrontos. (Foto: Instagram)
O populismo é uma figura antiga na história política. Embora mude de aparência, discurso e adaptação aos novos tempos, mantém a essência: promete representar o povo diretamente, sem intermediários, e apresenta o líder como único intérprete da vontade popular. Quando se concentra nas campanhas, assume uma forma própria: o populismo eleitoreiro, que converte a disputa pelo voto em espetáculo de emoções, promessas e ilusões.
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Esse fenômeno não pertence exclusivamente à direita nem à esquerda. Ele atravessa ideologias e diferentes regimes, encontrando espaço em sociedades marcadas por desigualdade, insegurança e desconfiança nas instituições. Alimenta-se da insatisfação, comunica-se por meio de simplificações, usa a emoção como ferramenta e busca, de imediato, conquistar o poder.
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A democracia depende do pluralismo, da negociação, do respeito às diferenças e do reconhecimento das instituições. Já o populismo eleitoreiro tende a separar o mundo entre bons e maus, aliados e adversários, povo e elite. O concorrente deixa de ser visto como legítimo e passa a ser tratado como uma ameaça à nação. Em vez de escolha entre projetos, a eleição é descrita como uma batalha para salvar o país.
O cientista político irlandês Cas Mudde, um dos mais conhecidos pesquisadores contemporâneos do populismo, aponta a oposição entre um povo visto como puro e uma elite retratada como corrupta. Ernesto Laclau, filósofo e teórico político argentino e um dos principais pensadores do populismo nos séculos XX e XXI, ressalta a formação política de uma identidade popular que reúne demandas dispersas. Ao estudar a experiência brasileira, Francisco Weffort, um dos mais importantes cientistas políticos do país, analisou os vínculos entre liderança carismática, massas populares e estruturas do Estado. Embora diferentes, essas interpretações ajudam a entender a persistência e a força do fenômeno.
No populismo eleitoreiro, as promessas substituem o planejamento. O candidato apresenta respostas imediatas a problemas estruturais: promete prosperidade sem detalhar os custos, oferece segurança sem enfrentar as origens da violência e anuncia justiça social sem explicar seu financiamento. A complexidade acaba sacrificada em nome da popularidade.
A comunicação é um componente essencial desse mecanismo. O discurso costuma ser breve, repetido e carregado de emoção. As palavras buscam tocar mais o coração do que a razão. A indignação toma o lugar dos argumentos, o slogan substitui o programa e a imagem do candidato se impõe à solidez das propostas.
As redes sociais expandiram esse processo de forma extraordinária. Os algoritmos privilegiam conteúdos que provocam reações fortes. Mensagens moderadas têm dificuldade para competir com acusações explosivas. Uma mentira emocional pode se espalhar mais rápido do que uma verdade documentada. A inteligência artificial abre ainda mais espaço para manipulações, por meio de imagens, vozes e acontecimentos inventados.
Nesse contexto, a política passa a ser um espetáculo contínuo. O candidato precisa estar em evidência, provocar, emocionar e criar polêmicas. A visibilidade começa a valer mais do que a competência, e o número de seguidores vira uma espécie de credencial política. Popularidade digital, no entanto, não significa capacidade para administrar nem compromisso com a democracia.
Outra marca desse fenômeno é criar inimigos. Para conservar sua base mobilizada, o líder precisa apontar culpados pelas frustrações coletivas. Os alvos podem ser ricos, pobres, políticos tradicionais, empresários, imprensa, tribunais ou supostos conspiradores. O essencial é definir alguém contra quem canalizar a indignação popular.
O Brasil reúne condições favoráveis a essa prática. Desigualdade social, famílias endividadas, custo de vida, serviços públicos precários e sensação de insegurança estimulam a busca por respostas imediatas. O eleitor procura soluções para necessidades concretas; o populista oferece certezas, ainda que não tenha alternativas viáveis.
É importante separar o popular do populista. Popular é o governante reconhecido por suas realizações, pelo diálogo e pela proximidade com a sociedade. Populista é quem tenta converter essa identificação em dependência política e se apresenta como um salvador indispensável. A popularidade pode contribuir para fortalecer a democracia; o populismo pode enfraquecê-la quando ataca os limites institucionais.
Políticas sociais também não devem ser confundidas com populismo. Transferência de renda, investimentos públicos e ações voltadas à proteção de pessoas vulneráveis podem ser ferramentas legítimas de justiça social. A manipulação ocorre quando essas iniciativas são tratadas como favores pessoais do governante ou usadas para criar dependência eleitoral.
Nas campanhas brasileiras, o populismo eleitoreiro aparece na disputa pelo significado simbólico do povo. Cada campo tenta convencer a sociedade de que representa o Brasil verdadeiro. Um reivindica a defesa dos pobres; outro, a proteção da família, da ordem e dos valores tradicionais. Ambos podem dramatizar conflitos e desqualificar moralmente seus adversários.
A questão não está em defender essas bandeiras, mas em converter causas legítimas em meios de exclusão. Nenhum partido detém o monopólio da justiça social, da moralidade, do patriotismo ou da democracia.
A polarização torna esse cenário ainda mais intenso. Em vez de conquistar o eleitor com propostas melhores, as campanhas tentam mobilizá-lo pelo receio de que o adversário vença. O voto deixa de representar esperança e passa a servir como instrumento de rejeição: vota-se menos a favor de alguém e mais contra alguém.
Eliminar a emoção da política não é a resposta, pois isso seria impossível. A política envolve sentimentos, identidades, expectativas e sonhos. O desafio é encontrar equilíbrio entre emoção e razão, liderança e instituições, promessas e responsabilidades.
Uma democracia sólida depende de cidadãos que cobrem resultados, avaliem propostas e desconfiem de soluções milagrosas. Também requer partidos comprometidos com programas e dirigentes conscientes de que governar é mais difícil do que conquistar aplausos.
O populismo eleitoreiro ganha força quando transforma a esperança em mercadoria e usa o medo para mobilizar. Seu maior risco não se limita às promessas não cumpridas: está também no desgaste da confiança pública que provoca.
Afinal, a democracia não é medida pelo tamanho das multidões que aplaudem um líder, mas pela liberdade que os cidadãos têm para questioná-lo.
Tags: articulação política, briga política, crise política, democracia, economia, eleição


