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Rondó das sucessões: crônicas de Odylo Costa, filho

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Odylo Costa, filho, reflete sobre o acaso e as disputas que marcaram as sucessões presidenciais no Brasil. (Foto: Instagram)

Rondó das sucessões (Última Hora, 6/1/1978)

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Quando passava da infância para a adolescência, na cidade onde cresci, Teresina, às margens do Parnaíba — referência feita apenas pelo prazer das lembranças, pois o nome logo me traz à memória o rio e suas canoas —, eu era bom aluno de História do Brasil. Meu querido amigo e professor Dídimo Castelo Branco sabia disso. Entrava na sala, sentava-se na cátedra e dizia: “Seu Odylo, exponha o ponto”. Orgulhoso, eu expunha. Ao terminar, ele acrescentava: “Nada a corrigir ou acrescentar. Está encerrada a aula”. Saíamos todos contentes, ao menos eu e ele; imagino que os demais também, pois nunca ouvi reclamações. Fui além: nas provas finais, chamado por ele para corrigir as avaliações dos colegas, dei notas generosas, entre sete e nove — acho que cheguei até a um nove e meio. Astuto e cauteloso, guardava o dez para mim, certo de que ele me daria a nota ou, melhor, reservava para mim o único dez. Dídimo me ensinou uma lição da vida: deu-me seis e explicou que eu fora erudito e abrangente, mas, ambicioso demais, só tivera tempo de responder de maneira brilhante à primeira questão; nas outras, a pressão do tempo me fizera ser breve e incompleto. Mesmo assim, o seis foi generoso e compreensivo. Chorei — fui um menino chorão e devo a isso o fato de hoje conseguir engolir as lágrimas —, mas aprendi que a existência é imprevisível e que a própria História também é.

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Na minha modesta opinião — não me aventuro nessas filosofias —, há duas certezas na História: a primeira é sua incerteza; a segunda, a influência das pequenas coisas nas grandes decisões.

A esse respeito, há um episódio que considero muito curioso. Existem várias explicações para a instauração da República na França de 1871. Mas dois acontecimentos foram decisivos: o Conde de Paris recusou o pavilhão tricolor, dividindo os monarquistas — Leão XIII, surpreso com aquele irrealismo político, exclamou: “Mas por um guardanapo”! O guardanapo a que o grande italiano se referia era a bandeira da flor-de-lis… O outro episódio foi a aprovação, por um voto, na Assembleia Constituinte, da astuta emenda que proclamava a República.

A História avança por um terreno cheio de “ses”: a cada momento, uma hipótese cai, e o acaso aparece na forma de uma ação humana, de uma força da natureza, de uma bomba que falha ou explode, ou até mesmo de uma dor de barriga.

Essa constatação, quando aplicada aos Estados Unidos, fez com que a vice-presidência daquele país fosse chamada de “american roulette”. No Brasil, porém, a “roleta americana” funcionou poucas vezes, e de maneira muito peculiar: houve um Vice- Presidente — ninguém menos que Pedro Aleixo — que não pôde assumir quando o Presidente adoeceu e morreu; também houve um Vice-Presidente — ninguém menos que Floriano Peixoto — que nunca usou o título presidencial porque, se o fizesse, desmascararia o sofisma que o mantinha no poder. A fórmula era sempre: “Vice- Presidente no exercício da Presidência”. Por outro lado, quase sempre houve no Brasil uma verdadeira roleta na escolha do novo Presidente. A impressão é que o antecessor sempre escolhia quem viria depois.

E aconteceu justamente o contrário.

É sabido que Floriano não escolheria Prudente de Moraes. Prudente escreveu que não tinha culpa pela chegada de Campos Sales, de cujo bolso do colete não saiu o nome de Rodrigues Alves. O preferido de Rodrigues Alves era Bernardino de Campos, mas outros líderes republicanos, com Rui à frente, afirmavam que o Presidente não podia interferir na escolha do sucessor. Veio então Afonso Pena, mas ele morreu de “traumatismo moral”, e o Marechal Hermes assumiu. Hermes queria Pinheiro, mas quem subiu foi Wenceslau. Epitácio chegou a defender que a renúncia de Bernardes, já eleito (nos moldes da época), seria a solução. Washington Luís, sim, escolheu o candidato e não apenas teve a satisfação de vê-lo eleito nos moldes da época, derrotando Getúlio: viu Júlio Prestes cruzar o Rio em carro aberto, sob aclamações.

Pouco depois de ajudar Dídimo Castello Branco a explicar o passado brasileiro no Liceu Piauiense, tive, em março de 1930, uma aula prática de história política e direito eleitoral: vi falsificarem uma ata para Júlio Prestes. Foi alegre e lindo! Acho que até eu assinei o nome de um eleitor ausente… Mas não me lembro bem. Faz tanto tempo; e é bom esquecer certos pecados.

Odylo Costa, filho

Tags: História, Presidência da República

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